Exorcizar demónios

Em vez da habitual e mordaz crítica aos que os outros fazem e dizem, vou hoje antes deixar discorrer palha sobre o que me vai na alma – uma nota pautadamente mais pessoal, bem longe da tentativa (fracassada) de apresentar pontos de vista imparciais sobre os diversos temas aqui apresentados anteriormente.

Esqueletos no armário.

Encontro-me neste momento com 31 anos. Há vários anos atrás, via a minha vida num prisma completamente distinto daquele com que me observo agora. Existiam dúvidas, mas estas exacerbaram-se ao longo do tempo, tendo levado atrás todo o eu, ao ponto de me estar a tentar reencontrar. Nesses longo periodo entre 2005 e 2016 – 11 anos – perdi-me, algures. Deixei de ser eu. Em certos aspectos, morri um pouco todos os dias até há bem pouco tempo atrás, aceitando a Morte como algo natural e esperando, e, em parte, por ela, como se ela fosse uma amiga, uma libertação da sensação psicótica de cansaço mental, de desilusão, da ataxia que se tornou a minha vida. No momento em que apareceu a oportunidade de dar a volta de um modo radical e positivo à minha vida, vi-me embrulhado numa situação na qual, intimamente, era absolutamente contra. Queria a minha liberdade, mas a única coisa que aconteceu foi sair de uma gaiola e mudar para outra, mais perto do trabalho, mas simultaneamente, mais longe. E nesse decair exponencial da minha personalidade, erodida por esse sentimento e falta de força para mudar as coisas, deixei-me estar. Aceitei o fracasso como sendo parte integrante da minha vida. Palavras como ‘impossível, incontornável, inconfrontável, medo, pânico, cobardia, conceitos que se encontravam nas antípodas do que eu era – ou do que achava que era – revelaram-se.

Senti que não tinha capacidade de trabalho, nem vontade de o fazer – no sentido de não sentir motivação, paixão, de sentir que aquilo me dizia algo. Senti-me morto, e para viver o sonho de outra pessoa – sonho esse que achei que seria o meu de inicio, uma vida calma e tranquila, rosas e amor – tornou-se um pesadelo. Em breve, a minha vida encontrava-se fracturada – tinha uma vida para os meus pais, uma para casa, uma para o trabalho, e outra na internet, o relativo espaço onde conseguia, em parte, compensar todo o resto – um grande erro, em parte.

Citando Stekel: “In anxiety the libido is transformed into organic and somatic symptoms; in doubt, the libido is transformed into intellectual symptoms. The more intellectual someone is, the greater will be the doubt component of the transformed forces. Doubt becomes pleasure sublimated as intellectual achievement.” (Wilhelm Stekel, “The Doubt”, Compulsion and Doubt (London: Peter Nevill, 1950), p. 92.)

Ardilosamente, começei a viver em função de outra pessoa, não por demência ou estupidez (é engraçado como só podemos classificar as coisas como sendo algo *depois* de se revelarem. Pré-cognição é algo que não existe – apenas intuição e experiência de vida). Vivi porque me deixei ir. Porque achava que a pessoa que estava comigo tinha tanto desejo de sucesso como eu tinha. Mas não. A pessoa com quem eu vivi revelou-se nas antípodas do que eu achava que ela era. Não é má pessoa, mas possui um carácter que é incompatível com o meu. É fácil dizer ‘Desculpa’ e ‘Podiamos ter evitados tantas discussões’. Mas o mal está feito. Quando não se agride fisicamente e se é agredido porque existe a segurança de não se ser agredido – desproporção de forças – isso é uma forma de humilhação, de rebaixamento. Chegar a casa e ver uma casa suja, com lixo, desmazelada, sem aquele ar estudantil, sem alegria, com dor e sensação de desespero, de fuga… mas ter todos os lados vedados, porque a relação conseguiu cindir as amizades existentes e clivar as relações familiares é simplesmente desastroso. A este ponto, convém reflectir que não vivia com um monstro. Vivia com uma mulher, que tinha também os seus sonhos e credos. O problema é que eu optei por ela, e ela optou por ela mesma. Havia momentos de reciprocidade, mas ela esperava do namorado uma espécie de pai, e as coisas pioram quando existe uma certa imaturidade inata que não ajuda em nada a abrir horizontes. Aprendi demasiado sobre direito, muito sobre computadores, pouco sobre química.

Até que um dia decidi mudar a minha vida, usando o velho adágio ‘Nada como um novo amor para curar outro’. E apaixonei-me. Desta vez, de um modo intenso e mágico, diferente dela. Era uma paixão a vários níveis, e pela primeira vez, senti aquela sensação reconfortante e feliz de achar que encontrei aquela pessoa que queria acompanhar até ao fim da minha vida. Foi um despertar novo. Devo-lhe a minha vida, ou melhor, o devolver da minha vida. Fez-me apaixonar. Fez-me viajar. Fez-me ter a coragem de decidir o que era melhor para mim. Dentro dos defeitos que faltavam polir, transformou-me para algo melhor, mesmo que a tenha desiludido em vários aspectos. Posso dizer, sem exagero, que foi o amor da minha vida. Por tudo. Pelo abrir-me os olhos. Pelo abrir-me a mente. Por ter-se apaixonado por mim como era, e ter sido humana e reconhecido as minhas virtudes e defeitos e ter agido honestamente para comigo, apesar de, nessa fase, estar tudo muito turbulento na minha mente. E espero que, apesar de tudo, encontre alguém que a faça sentir-se como ela merece ser – feliz, alegre, livre, fiel a si mesma.

No meio desta maratona de reconstrução/destruição/renascimento, dei por mim em Espanha. Dei por mim a tentar sobrecompensar o que achava que me faltava, e a deixar permear erros que deveria ter corrigido. Custou-me imenso integrar inicialmente no ambiente de trabalho – posturas diferentes, metodologias diferentes, e ainda muitas das posturas erradas. Mas fui evoluindo. Aprendi a língua, aderi aos costumes, fiz amigos, tive problemas graves, tentei remenda-los, e consegui deixar de andar de gatas para começar a andar de modo mais vertical, deixando de olhar para o chão e ver a fronteira tão perto, para começar a olhar para o ar, e ver a fronteira longe, sem limite. Foi uma limpeza espiritual, que ainda não terminou, mas que a cada dia que passa me faz crescer mais do que era antes.

Hoje, quando olho para as fotografias de Estocolmo, quando recordo com saudade as vistas de Norra Riddarholmshamnen ,com a ponte de Väterbron a servir de pano de fundo, com a Stadshus de Estocolmo do lado direito, olho com felicidade. Acalma-me, apesar de a saudade ainda teimar em largar uma lágrima. Quando me cruzo com os dois trolls religiosamente guardados (um deles fez-me sentir um tremendo egoista a lidar com um coração de ouro), sinto-me feliz por ter atravessado essa fase. Salvou-me. Ela ensinou-me a abrir-me mais às pessoas, a voltar a ser mais eu, mais genuino, sem merdas. Salvou-me de mim mesmo, do abismo onde estava. Devo-lhe muito – (e quando penso em Prater, em Viena, ainda fico envergonhado até à raiz dos cabelos. E sim, tenho ainda de saldar essa dívida)

Obrigado por tudo, Gisela – desde o amor, ao carinho, e à presença. E sobretudo, obrigado por, ao seres tu, ao tomares o rumo da tua vida, ao enfrentares as tuas necessidades, me teres feito olhar ao espelho e ver que o Cid que um dia gostaste ainda existe, mas andava extremamente perdido. Obrigado por me teres aberto horizontes, corrido a Europa de mão dada comigo, e por saberes lidar com a minha falta de experiência em público, em fazer amizades duradouras, sólidas. Em manter um sorriso na cara, para que me recorde que não posso ir abaixo. Por ver a tua paixão no que fazes, e o desejo e ansiedade positiva que mostras em todas as pequenas conquistas que alcanças. Fizeste-me ver que afinal, não era o falhado que pensava que era, nem sou pior nem melhor do que pensava – posso construir-me, se o fizer com amor, com o saber perdoar-me e viver cada dia da maneira mais feliz que posso, lembrando sempre que cada dia que passa, já não se vive. Para sempre, recordarei Odenplan, o jardim nevado, as chávenas de chá à janela, os beijos fugidios, o riso e a diversão, mesmo quando começava a ser dificil conviver comigo.

Obrigado Carlos, Celina, Isabel, Santi, Agus, Marce, Lucie, por me terem feito crescer depressa, forçando-me a por de lado os dogmas e vencer de uma vez por todas a inércia, e ter trabalho feito – sem vocês, não estaria aqui, independentemente dos problemas que ainda existam por resolver. São, cada um de vós, dos amigos mais importantes que tive, entre confidentes, amigos de confiança, e colegas de trabalho.

Obrigado, Sara, por teres continuado o que a Gisela começou, fazendo desabrochar ainda mais os sentimentos que estavam reprimidos, e que ajudaste a limpar, e principalmente, por te ter podido ajudar a exorcizar os teus próprios demónios. Obrigado por me ajudares a ser mais ‘Cid’.

Obrigado Sia, por teres também ajudado a quebrar a dura carapaça da solidão.

Obrigado Igor, por continuares a ser o meu droog favorito, e nunca me teres abandonado.

E em especial ao Miguel e à Mariana, o meu mais profundo obrigado, pela amizade sincera, bem como pelo esforço devotado a ajudar-me a percorrer o ultimo percurso, e a não perder o rumo, mesmo quando isso pareça algo impossível.

Foram onze anos de crescimento. De aprendizagem. De deixar de ser menino, e passar a ser adulto. Mas aprendi uma coisa – não quero ser um “adulto”. Quero continuar a ser eu, e a explorar o significado de ser eu. Quero continuar a poder sorrir todos os dias, como tenho consigo, e como já não me lembrava de conseguir. Quero poder bufar e olhar para o trabalho e dizer ‘Tem de ser!’ e faze-lo, com gosto. Não sou um falhado, não sou um desastre, não sou incapaz, nem sou um ‘quitter’. Todos os profissionais tiveram um começo. E é ai que falhei – esqueci-me que não é só o começo, mas o não parar, que faz de nós profissionais. Deixei-me levar pela errónea filosofia do ‘saber o suficiente’, em vez do ‘saber, ponto!’

Moral da história: Não se enganem. Não desperdicem a vossa vida e oportunidades. Não deixem de ser vocês. Confiem no vosso instinto. Sejam fieis a vocês mesmos, e viverão de modo mais alegre e feliz, e sobretudo, com maior honestidade e transparência com vocês mesmos.

Sejam isso tudo. E serão mais. Acreditem.

Palavras de quem por lá passou e quis partilhar com vocês os seus túrbidos pensamentos.

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