Uma crítica ao artigo do Público – “Foi para isto que se fez o 26 de Novembro?”, por João Miguel Tavares

Foi para isto que se fez o 25 de Novembro? Artigo de Opinião publicado no Jornal Público

O Manifesto ‘Anti-Esquerda’, escrito pelo autor mencionado, apareceu em boa altura, justamente nos 100 anos do Manifesto Anti-Dantas, usando o mesmo estilo pândego e caracterizado pelo seu solipsismo moral.

Sendo o Estado Português um Estado laico, parece-me ridículo alguém vir invocar a não realização de milagres como sendo o ónus de um suposto fracasso governamental. Sou obrigado a dizer que o autor radica a sua crítica com extremo cuidado, zelosamente omitindo factos importantes que contribuiram para a situação actual, como os diversos e perniciososo problemas deixados pelo anterior Executivo.

Creio que o autor não deseja compreender o conceito de ‘austeridade’. Sendo o autor uma pessoa dada precisamente ao solipsismo ‘drôite’, deveria aprender o quanto o que escreveu é desajustado da realidade, executando uma simples experiência: Experimente endividar-se até às orelhas, e tomar todas as medidas de austeridade possíveis na sua casa – usar o papel higiénico dos dois lados, mais do que uma vez, comer poucas ervilhas para evitar gorduras e como tal, despesas extra, levar o lixo só um vez por semana ao lixo, para conservar sacos, vender todos os seus bens ao desbarato, e tente sobreviver assim vários anos. Duvido que pouco tempo passará até ter que ser ‘socorrido’, ou melhor ‘resgatado’ da situação em que se encontra, degradante a nível físico, emocional, social e económico. Agora diga a si mesmo – isto tem de levar uma volta! Tenho de recuperar a minha vida de volta. Tem de começar por pagar as dívidas, e ter a certeza que não se esqueceu de nenhuma. Tem de ganhar novamente massa muscular. Terá de tomar medicação. Terá de ter uma motivação positiva. Terá de ter quem o apoie na sua decisão. E terá a plena consciencia que os resultados demorarão a aparecer – não será de um dia para o outro!

E é nesta dimensão temporal, perniciosamente ingénua, que se basea o autor para descrever a política do actual Executivo. Creio que a Direita continua com um rancor desmesurado por achar que a Constituição deveria servir os seus intentos, e não os do Estado.

Não posso deixar de sorrir com a bofetada valente que a Direita levou nas eleições, e ainda mais, com Marcelo Rebelo de Sousa enquanto presidente, com uma postura radicalmente diferente do anterior – um verdadeiro sentido de Estado, um presidente que se aproxima dos Portugueses e das Comunidades, e que não abdica de ser fiel a si mesmo – negando ao PSD o seu ardente desejo de vingança pelo 26 de Novembro.

A maior ironia vem disfarçada pela data – 26 de Novembro, o dia seguinte ao golpe de 25 de Novembro, onde os spinolistas, a malta da direita ‘de renovação’ (digo isto, porque falar em direita liberal é um contrasenso – é ir contra a definição Hegeliana do termo, que define a Direita como sendo a realpolitik da família e dos seus costumes, que em Portugal estão radicados profundamente na Santa Madre Igreja) – fracassaram na sua tentativa de derrube de Governo, com receio de uma certa ‘Matança da Páscoa’, chegando Spínola mesmo ao desplante de intervir junto da embaixada dos EUA em Madrid e pedir ajuda ao Governo espanhol de então para ‘invadir Portugal e impedir o comunismo’. Fracassou, e foi para o Brasil. Os ciclos históricos repetem-se, mas o Brasil já não se recomenda à Direita mais ‘torta’, porque neste momento, o Brasil já não é o que era antes.

Em suma, caro João Miguel Tavares, deixe-se dos laivos estóicos da juventude hipster, preencha-se de um salutar espírito de crítica, e saiba analisar prós e contras. Não há políticas perfeitas, nem tão pouco políticos perfeitos! Mas convêm existir crítica decente – ou então estamos condenados a sermos pouco mais do que uma massa amorfa a que chamam ‘Sociedade’.

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