Terrorismo, Corrupção e Política – o eterno flirt do Dinheiro

Nos últimos dias, temos assistido a uma espectacular fuga de informação da Mossack & Fonseca, uma firma de advogados que, segundo o aparelho jornalístico, servia de frente para a criação de empresas offshore e encontra-se ligada à lavagem de dinheiro e demais géneros de corrupção.

Claro que semelhante notícia é também fonte de fortes ironias. Vejamos algumas:

Em 2014, a Ucrânia andava em forte alvoroço, com o seu povo a desejar uma revolução para expugnar a corrupção de Yakunovych, visto como sendo um indíviduo que cedia à pressão da Rússia. Recordemos que nesta altura, Yulia Timonshenko, entre outros, andam desertinhos para criar políticas que ligassem a Europa à Ucrânia, e mantivessem a Rússia bem longe. Yakunovych foge para a Rússia, a Crimeia declara a sua indepedência da Ucrânia, e junta-se à Rússia, e assiste-se a um bailarico ridículo que levou a uma guerra civil em Lugansk e Donetsk e Donbass, que ainda persiste, sem vencedores nem vencidos. Aparece Poroshenko, o ‘Rei do Chocolate’, visto como um candidato que reunia consenso para o governo ‘desconsensual’ que se organizava. Arseniy Yatsenyuk bradava o sabre da Justiça, conversas telefónicas entre Timonshenko e Yatsenyuk citavam coloquialmente a necessidade de assassinar Putin, e o movimento ‘Euromaidan’, de vento em popa, viu elementos das Spetnaz a pedir perdão, e outros a abandonar o país.

Em suma, uma tremenda confusão.

Dois anos volvidos, Poroshenko, revelou ser tão digno quanto o chocolate branco possui de teor de cacau – é, afinal, tão corrupto como Yakunovych, Yatsenyuk demite-se depois de várias alegações de corrupção e de um trabalho ineficaz à frente do Governo Ucraniano, estando a Ucrânia numa situação precária desde então. Timoshenko está desaparecida em combate. Nada melhorou, em nenhuma frente, estando o Estado envolvido numa guerra assimétrica, que só esvazia mais os cofres do Estado, e não havendo qualquer interesse diplomático do actual Governo para o impedir. É curioso, contudo, que este mesmo governo tenha sido contra – juntamente com os EUA e o Canada – uma resolução das Nações Unidas para assinalar a luta antifascista a nível global. Mas não espanta, pois parece que o carácter de certos membros desse governo parece ter sido forjado no mesmo forno que deu origem aos últimos combatentes nazis na Europa – as SS de origem ucraniana.

Quanto a Putin – ninguém quer saber o que têm e deixou de ter, excepto aqueles que o pretendem atacar. Há índices de popularidade que são quase impossíveis de cair, e Putin é um deles. Por mais ‘mil milhões’ que possam existir.

Na vizinha Espanha, o ‘Podemos’, revela que teve umas ajudas do CEPS (Centro de Estudos Politico-Sociales), que era financiado pelo governo venezuelano – o que constitui aparentemente um crime face à lei do financiamento dos partidos do Estado espanhol.

Os foguetões norte-coreanos possuem também o alto-patrocínio da Mossack-Fonseca, e membros do Politburo chinês também lá têm cota.

David Cameron disse que fez umas massitas com o pai por intermédio da empresa, mas que pagou todos os impostos!

A cereja no topo do bolo vai para a Islândia, que após ter feito uma purga à corrupção no seu país, vê o seu primeiro-ministro envolvido em corrupção.

Por cá, temos sacos azuis – acho perfeitamente correcto que sejam azuis, dado que somos ensinados que é no saco azul que pomos o papel e o cartão – e mais umas desventuras, o circo triste que Eça de Queiróz e outros artistas consiguiram, com muito mais arte do que eu, descrever com pinta e qualidade, a ‘Formiga Branca‘ que vai minando a sociedade – se bem que hoje em dia, a massa que a compõem é diferente…

Por fim, eis-nos chegados ao tema dos actos de terror que tem assolado a Europa (reparem que não usei o termo terrorismo. Já lá irei!)

Façamos aqui uma pausa, e falemos de uma frase muito conhecida e estafada de um senhor chamado Carl Phillip Gottfried von Clausewitz. Este senhor, um teórico militar e general prussiano, tem um aforismo famoso: “A guerra não pode ser vista como sendo meramente um acto político, mas também como um instrumento da realpolitik, a continuação da política comercial, a continuação do mesmo por outros meios’.

Ora bem, assim sendo, existe sempre – num acto de agressão – uma razão consistente e lógica para o praticar – independemente do quão ético ou moralmente correcto tal seja. Leiam sobre a ‘Guerra do Ópio’ da Inglaterra com a China, e verão como funciona a ideia de ‘mercado aberto’ ou ‘mercado livre’, e rapidamente encontrarão paralelos com instrumentos políticos como por exemplo, o FMI. Exemplo como o Haiti entre outros, dão bem conta do quão destrutiva a política do ‘mercado livre’ pode ser para uma economia em desenvolvimento. Basta olharem para o nosso país, e o quanto ele mudou economicamente desde o 25 de Abril. Pensem nas empresas que fecharam à custa da incapacidade de competir com o mercado estrangeiro aquando do primeiro resgate do FMI a Portugal. Vão digerindo devagar esta lição, e começam a ter uma ideia sobre a realpolitik que está instalada por estes lados – e não só.

Portanto, questão principal – Mas afinal o que é o terrorismo? De um modo genérico, relacionando com o que já foi dito atrás, o terrorismo pode ser definido como o acto de usar da violência para atingir um dado objectivo, seja ele de que natureza for.

Assistimos já a actos de terrorismo elaboradíssimos – o ataque na Piazza Fontana (que teve a mão da organização Aginter Press, de origem portuguesa, sob comando do ex-combatente francês da OAS, Yves Guérain-Sèrac). Os ataques a Aldo Moro, ao procurador Giovanni Falcone, com 500 kgs de explosivo colocados sob a estrada para detonar aquando da passagem de carro deste pela mesma; o atentado da Via D’Amelio, contra Borselinni. O assassinato de Sven Olof Joachim Palme e de Ylva Anna Maria Lindh E claro, o caso das famosas torres gémeas.

Todas elas têm uma coisa em comum: um ideal, personificado numa pessoa. Quem ler ‘V for Vendetta’, verá também o exemplo do ‘V’, que faz atentados contra edifícios simbólicos e queridos dos ingleses, de modo a instigar uma reacção.

Por outras palavras: um acto terrorista tem sempre em vista a destruição de um símbolo, representante de um ideal, para impor o seu ideal.

Vou pedir-vos um exercício de frieza e de racionalidade. Não obstante o horror dos atentados de Paris e de Bruxelas, vocês sentem medo de sair à rua? Não mais do que antes.

Suponhamos que eram efectuados atentados, mesmo que frustados, contra o SACEUR (Supreme Allied Command, EURope, o quartel general da NATO na Europa), em Casteau, na Bélgica, e um contra o Parlamento Europeu. Sentiriam medo? Certamente que sim.

O que mudou? O que leva à mudança de atitude? Não é a exposição – podemos ser alvo de atentados, como Espanha já foi em Atocha.

É o motivo. Não há qualquer símbolo a ser atingido!

 Poderão dizer ‘a liberdade’, e todo a ‘paranóia’ policial que induziu no Norte da Europa. Não há motivo. Não é por se dizer que é ‘militante do Estado Islâmico’ que passa a existir motivo – o chamado motivo ‘porque sim’. É portanto, um acto de terror. Mas não posso dizer que seja verdadeiramente terrorismo, porque há outro factor em jogo – um fenómeno curioso cunhado de ‘Stand Alone Complex’ por Masamune Shirow: o efeito de ‘cópia sem original’. Parece absurdo, mas é simples de entender.

Aquando de um ataque terrorista, é costume emergir um comportamento de ‘copycat’ , de ‘copiador’. Este tipo de comportamentos é tanto mais comum quanto mais intensa for a atenção dos meios de comunicação ao mesmo. A ideia do conceito de ‘Stand Alone Complex‘ é que um potencial ‘copiador’ apenas tem de acreditar que o comportamento copiado aconteceu graças a um ‘originador’ – quando na realidade, tal originador não existe. E como diz J.D. Salinger, na sua interpretação dos trabalhos de Wilhelm Stekel : A marca de um homem imaturo é que deseja morrer nobremente por uma causa, ao passo que a marca do homem maduro é que deseja viver humildemente por uma [causa]. O resultado é uma epidemia de comportamentos copiados que produzem um efeito de rede do propósito. Em suma, o SAC é nada mais do que uma histeria em massa por causa de nada, mas mesmo assim levando a uma mudança geral na estrutura social.

Nas palavras de Dziga Vertov:

“I’m an eye. A mechanical eye. I, the machine, show you a world the way only I can see it. I free myself for today and forever from human immobility. I’m in constant movement. I approach and pull away from objects. I creep under them. I move alongside a running horse’s mouth. I fall and rise with the falling and rising bodies. This is I, the machine, manoeuvring in the chaotic movements, recording one movement after another in the most complex combinations.

Freed from the boundaries of time and space, I co-ordinate any and all points of the universe, wherever I want them to be. My way leads towards the creation of a fresh perception of the world. Thus I explain in a new way the world unknown to you.”

No fundo, a base de tudo isto basea-se em Teoria Social, dos quais devo salientar os trabalhos de Frederic Jameson e de Masachi Osawa, que são bons pontos de partida para se entender isto. No fundo, todos estes acto de terror são apenas um simulacro de segunda-ordem. Não existe um verdadeiro motivo por detrás dele – mas os efeitos sociais estão bem patentes, e são palpáveis.

Bem vindos ao mundo moderno, onde a tecnologia nos trouxe a um ponto onde a Vida imita a Arte.

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