Refugiados, Aristides e 1910-1917

(Isto é uma reacção aos famosos videos que andam aí a passar, com a ‘socielite’ portuguesa a dizer o que levava na mochilinha, escrita noutro lado, mas que decidi partilhar, sem modificações, nem correcções ortográficas)

Eu vi uma acção há dias por parte do Ministro da Educação, numa escola, relativamente a isto. A minha reacção imediata foi precisamente essa – a de achar que estavamos a desrespeitar os refugiados (ou então, estamos a treinar a futura geração a como sair do país, desde pequeninos). Contudo, após acalmar um pouco essa veia impetuosa de crítica imediata, também vi uma outra vertente – a de educar a geração mais nova a aceitar aqueles que chegam sem nada, apenas com a esperança de reconstruir uma vida. Uma lição de aceitação.

Agora, à medida que isto vai começando a escalar – como tem escalado – parece-me um pouco demais. É quase um livrinho kitsch – “Quando me refugiar, levo um saquinho de sonhos às costas!’ – por Joaquina Eustáquia Simões d’Aljezur, Edições Princesa Venérea, 2016.

Talvez seja infantil no modo como vejo as coisas, mas não conheço um povo melhor que o português para acolher quem foge. Não vejo necessidade disto. Mas vejo uma ironia histórica velada – não seria mais fácil, ético, e mesmo por uma questão de orgulho patriótico – ao invés da constante depressão social e sensação de inferioridade ‘racial’ – falarmos das personalidades que marcaram, no século passado e anteriores, a diferença entre a vida e a morte? Pessoas como Aristides de Sousa Mendes, quase um nome proibido em Portugal, mas considerado como um ‘Justo entre as Nações’ por ter ajudado a salvar mais de 30.000 pessoas, contra o próprio regime? Isso sim, seria de salutar, mas há um perigo escondido ai:

Idolatrar Aristides de Sousa Mendes é idolatrar um herói recente, uma pessoa determinada que sabia que a sua vida diplomática terminaria exactamente no momento em que pisasse solo português, mas que pôs a vida de 30.000 pessoas à frente da sua. E como dizia George Washington, ‘a árvore da liberdade tem de ser regada de tempos a tempos com o sangue de patriotas e tiranos’ – e, apesar de se cultivar a ideia de que Portugal é um povo de ‘brandos costumes’, isso é, em boa verdade, apenas um dogma enfiado à força, qual óleo de fígado de bacalhau – pela goela dos portugueses, para os levar à inércia. Atente-se aqui toda a ‘boa obra’ do cavaquismo, ao privatizar e desmembrar vários sectores do Estado, criando um espírito de desunião entre trabalhadores, desacreditação do poder sindical, criação de ‘classes elitistas’ dentro do mesmo sector, e explorando o espírito de meritocracia inerente ao individualismo.

Retomando o tema: Hoje, a sociedade vive à base do “kitsch” com uma dose elevada de “chutzpah”, com um tom ‘suave’ – uma espécie de Nouvelle Belle Époque do Século XX, onde se valorizam o ego acima de tudo, ao ponto de quando se fala em Jô Soares, já perguntamos qual deles – o zuka ou o tuga? Apesar de serem ambos comediantes, o primeiro goza da reputação de um humor inteligente, e o segundo segue o velho ditado – ‘Casa de pais, escola de filhos’. Jamba, UNITA e marfim são nomes que já morreram há muito em África, pois o tempo passa depressa – em 2002, a minha melhor amiga teve uma filha, e hoje em dia já desbobina, em tom frenético, Voltaire e o seu ‘Tratado a Tolerância’, estado já para entrar para a Universidade este ano. Portanto, sim, o tempo passa depressa, e a memória é curta apenas aqueles que lhes convêm.

Isto relembra-me sempre a velha história da moralidade: Podemos ver Judas como um traidor, ou podemos ve-lo como o gajo que, temendo que o seu bem amado Messias, após um copito a mais, ter dito que alguém na sala o trairia, conjuntamente com mais umas tontices que deviam ter morrido na memória do vinho, levaram o primeiro a tornar verdade as profecias do Messias, temendo que, caso não se realizassem, a fé neste perecesse. O final é igual em ambos os casos – a história também, mas a motivação não.

Em suma, quando olho para estas publicidades, sinto-as como uma espécie de nova lavagem ao cérebro, de uma nova tentativa de reescrever à força o sentimento de patriotismo inato a cada um de nós, que leu e (pelo menos deveria) conhece a história do seu país. Cortinas de fumo, para manter tranquilo os brandos costumes dos Portugueses…

Recordemos uma pequena época – 1910-1917:

Os constantes atentados à bomba, conspirações e golpes militares, produziram uma incrível sucessão de governos. Durante os 16 anos que durou a 1º. República, o país conheceu 45 governos, fora os indigitados !

No período entre 1910 e 1917 predominaram governos radicais do Partido Democrático, controlados por Afonso Costa, no período seguinte, sucederam-se governos conservadores que prepararam as condições para a emergência de uma ditadura.

Os próprios presidentes da república, sete no total, sofriam da mesma instabilidade dos governos. Em 16 anos, apenas um único cumpriu integralmente o seu mandato.

O recurso sistemático à força passou a ser a única forma para manter o novo regime. Os atentados a tiro ou a bomba entraram no quotidiano dos portugueses. Esta era a forma preferida para eliminar vozes incómodas ou resolver assuntos de Estado.

O parlamento dominado pelo Partido Democrático, não podia ser dissolvido, podendo aprovar as leis que queria sem qualquer controlo. O único meio para mudar de um governo era frequentemente através de golpes militares, um expediente que acabou por se banalizar. 24 governos foram derrubados por revoluções populares e golpes militares.

O Partido Democrática não tardou a recorrer à violência política e à censura para impor o seu poder, num ambiente político que lhe era hostil. Neste sentido criou bandos de assassinos conhecidos por “Formiga Branca”, que se tornaram tristemente célebres por perseguirem e assassinarem opositores políticos, jornalistas e sindicalistas. Em resposta, os outros partidos políticos, organizaram os seus próprios bandos de arruaceiros para lincharem os seus opositores à bengalada, tiro ou à bomba.

Ainda acreditam nos brandos costumes?

Nas palavras sábias de um português anónimo: Mandem foder quem vos anda a enganar!

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One Comment Add yours

  1. Ana Reimkhe diz:

    “Podemos ver Judas como um traidor, ou podemos ve-lo como o gajo que, temendo que o seu bem amado Messias, após um copito a mais, ter dito que alguém na sala o trairia, conjuntamente com mais umas tontices que deviam ter morrido na memória do vinho, levaram o primeiro a tornar verdade as profecias do Messias, temendo que, caso não se realizassem, a fé neste perecesse. O final é igual em ambos os casos – a história também, mas a motivação não.”

    Gosto muito disto. Desenvolve esta ideia. Dava um ensaio muito interessante.

    Beijo Paula

    2016-04-07 20:00 GMT+01:00 los arzamas :

    > losarzamas posted: “Eu vi uma acção há dias por parte do Ministro da > Educação, numa escola, relativamente a isto. A minha reacção imediata foi > precisamente essa – a de achar que estavamos a desrespeitar os refugiados > (ou então, estamos a treinar a futura geração a como sair ” >

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