Adenda – Portugal e o Jornalismo – uma aventura pela surrealidade

Lembra-se de ontem ter invocado as ‘regras de Moscovo’? Existe um corolário da Lei de Murphy aplicada às regras de Moscovo, que diz o seguinte:

“O que puder correr mal, irá correr mal, no pior momento possível”

Hoje jogou-se aos ‘opostos’.

Hoje, o PSD já não falou em tradição, falou em constituição – o que fez com que Luís Montenegro entrasse num loop de Hofstadter-Moebius. Duarte Pacheco teve de mostrar, como Moisés, as Tábuas da Constituição para defender Maria Luís Albuquerque.

Maria Luís Albuquerque faz chegar o seguinte comunicado ao público:

“A função de administradora não executiva não tem nenhuma incompatibilidade ou impedimento legal pelo facto de ter sido ministra de Estado e das Finanças e de ser deputada. Qualquer outra leitura que possa ser feita desta nomeação só pode ser entendida como mero aproveitamento político-partidário.”

Passos Coelho enerva-se quando lhe abordam a questão de Maria Luís Albuquerque. Dir-se-ia até que parece que a necessidade de Passos Coelho tem em ser novamente Primeiro-Ministro se justifica pela necessidade de … ocultar qualquer coisa…

Um deputado do Bloco de Esquerda relembra que havia um projecto-lei com a jurisprudência respeitante a estes tipo de casos, e que foi chumbado.

Uma lei deste calibre, a juntar às do enriquecimento ilícito… coincidência? Claro que não: corrupção. Já está mais que estabelecido.

O recém-eleito Presidente da República pronuncia-se dizendo que não é altura para se fazer ‘campanhas políticas’, dando assim um puxão de orelhas a Passos Coelho. O Presidente demissionário foi o único que não destoou neste quadro, mantendo a sua imagem de marca – a total inércia/inépcia.

António Costa põem contas à vida – vindo do ar, cairam, como uma bomba, 1,8 mil milhões de euros de indemnização a pagar ao Santander-Totta. Julgado num tribunal britânico. Apetecia-me fazer piadas toscas sobre o conceito geográfico,  mas o tema é grave demais. O cultivar da política de irresponsabilidade civil, em que gestores de empresas (Metro, Carris, STCP,etc) assinam contratos com contrapartidas ruinosas para o Estado, e ainda chegam ao desplante de preterirem a justiça portuguesa à inglesa é um profundo desplante, sem nunca sentarem os glúteos na cadeira do réu é vergonhoso. Mas também é tradição em Portugal que assim seja. Afinal, diz o ditado ‘A culpa morre solteira!’ – e de sabedoria popular, estão os partidos políticos bem recheados.

É óbvio que a lei inglesa, muito mais liberal, sem os laivos de ‘Estado de Providência’ que existem na Lei Portuguesa, tende claramente para o lado do Capital, neste caso, do Santander. Como sempre, responsáveis não existirão, porque nunca é feita uma averiguação aos boys – a capa da misericórdia e do compadrio político é grande, flexível, e tem estampado um padrão colorido, que diz ‘O Povo é sereno!’.

Feitas as contas, cada português, independentemente da sua idade, têm neste momento uma dívida de 180 euros a pairar sobre a sua cabeça para pagar a um banco.

José Ugaz diz-nos que ‘A Corrupção pode ser vencida se trabalharmos juntos. Para se acabar com o abuso de poder, os subornos, e lançar luz sobre os acordos secretos, os cidadãos tem de, juntos, dizer aos seus governos ‘BASTA!’

Fica aqui uma reflexão, que já passou pela cabeça de muitos, certamente: Se as empresas necessitam de gestores eficientes e capazes, porque motivo é que não podemos – e devemos – exigir o mesmo dos do Estado?

Questiono-me se as pessoas tem a real dimensão do que é o Estado. Não é apenas o ‘papão’, que só quer é ‘IVA’s’, ‘IRS’ e ‘IRC’, e taxas e taxinhas. Critico as más políticas de gestão orçamental, mas um Estado é mais do que isto. É um organismo vivo e crítico para a manutenção de algo tão simples como a nossa identidade cultural. É o Estado que nos fornece a educação (mesmo que com más políticas). É ele que trata de nós quando estamos doentes (deve-se a António Arnault, do PS, a criação do Sistema Nacional de Saúde, que permite o acesso a todo o cidadão ao sistema de saúde, algo que não existia no tempo da Outra Senhora. É apenas uma nótula histórica para os mais salazarentos de sangue). O Estado mantém a integridade nacional. Impede a anarquia, a injustiça, a inequidade, a desigualdade, o caos.

Ter um Estado assim não é um direito de cada um de nós – é um dever. E porquê? Porque depende de cada um de nós mante-lo. Não pode ser apenas um ícone, uma filosofia, tem de ser uma realidade. Não há Estados perfeitos – a natureza humana impede-o. Mas com o espírito correcto, conseguimos um Estado melhor.

Em 1873, o filologista Georg Anton Lorenz Diefenbach elaborou um manuscrito intitulado ‘Arbeit macht frei: Erzählung von Lorenz Diefenbach’. Nesse manuscrito, falava do facto dos jogadores/apostadores se livrarem da dívidas de jogo trabalhando – a labuta produzia o capital necessário para se ‘libertarem’ das dívidas, e poderem ter uma vida condigna. É uma ideia benigna, que 70 anos mais tarde foi desvirtuada pelos campos de concentração nazis, e imortalizada num portão de ferro, onde o trabalho libertava – pela morte. Isto é um exemplo de corrupção de sentido. De manipulação. Quem ler Diefenbach compreende a sua ideia, que é do senso comum, aliás, e um exemplo de ‘busca da virtude’. O trabalho liberta. Mas haverá sempre quem queira deturpar as coisas. Haverá quem queira dar outros significados, usando as mesmas frases.

Vivemos numa época onde se tenta confundir a legalidade com a moralidade. Se é legal, é moralmente correcto. O diabo. como sempre, está nos detalhes, e aqui, esses detalhes dizem respeito às situações que são legais, mas imorais. E se temos por tradição criticar a moralidade dos outros – estou a olhar na sua direcção, sr. Luís Montenegro – então é tempo de pensar se a imoralidade dos actos deve ser condenável. E o que ex-Ministra fez é de uma imoralidade descarada.

Não sei que mais vos dizer.

Uma última coisa, por hoje:

Não façam a coisa certa pelo motivo errado. Não há nada mais importante do que saber o PORQUÊ de se fazer algo. Não fazer perguntas implica não ter respostas – mas não podemos ser tão cobardes e medrosos ao ponto de termos medo das respostas às perguntas difíceis.

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