Portugal e o Jornalismo – uma aventura pela surrealidade

13h00. Hora do Telejornal – em qualquer canal de acesso público – em Portugal.

Temas tratados: Política americana, futebol, roubos e homicídios.

20h00. Hora do Jornal da Noite. Temas tratados: vide infra. Talvez mais uma palavrinha ou outra de alguém no futebol a usar vocabulário que não entende, e ficamos por ai. Uma ou outra aparição de Passos Coelho – saída directa do ‘Aeroplane!’, do desgraçado do tipo que sofreu um desgaste nervoso durante a guerra e se achava a Ethel Murman – que ainda não aceitou o facto de já não ser primeiro-ministro.

E no final disto tudo, um ‘Boa Noite, até amanhã’.

Dia seguinte: As mesmas notícias do dia anterior, com um bocadinho mais de cara lavada, mas o mesmo sabor.

Aborreço-me: mudo para a Euronews, um verdadeiro carrossel de notícias, que em 24 horas nunca sai do mesmo, mas ao menos ainda mostra mais qualquer coisita.

Estarrecido, viro-me para o Público, o Expresso e afins. Mais do mesmo. Pior, este último tem o Henrique Raposo, o qual replico todos os dias de manhã, sem ajuda de Actimel.

Ecoa na minha mente uma frase de Ian Fleming, do seu famoso livro ‘Goldfinger’:

“Once is an accident. Twice is coincidence. Three times is an enemy action.”  

E raramente as ‘regras de Moscovo’ estão erradas…

Se a lavagem de roupa suja no Parlamento é notícia, se um deputado que fica em cuecas num Parlamento regional é notícia, porque motivo a contratação da Maria de Lurdes Albuquerque, como directora não-executiva do Comité de Avaliação de Riscos, pela Arrow Global, a multinacional que comprou a Whitestar e a Gesphone, e que tem como clientes entidades tão interessantes como: Banif; Santander; Millenium; Montepio; Caixa Agrícola – e o BES também andou lá metido -, não é notícia??? E pior ainda, como é que é permissível que uma pessoa que exerceu um cargo e está na posse de informação confidencial sobre as finanças do Estado exerça um cargo desta natureza numa instituição privada, assim de pé para a mão?

O interessante é isto ser informação pública lá fora e aqui dentro … reina o silêncio!

Lá diz o ditado – quem cala, consente. Parece que em Portugal existe um sinergia promíscua entre os meios de comunicação e a política. Não posso culpar os jornalistas. Acredito que, apesar de uma pequena ‘elite’ de jornalistas que obtêm alvíssaras de semelhante prostituição moral, a grande maioria dos jornalistas em Portugal sentem uma revolta interna sobre isto – o querer escrever e não poder. Não, culpo os editores, a malta do topo, quem decide o que sai e o que não sai, o que se publica e o que não se publica.

As imagens mais divertidas que os meios jornalísticos dão de Portugal são de uma demência incrível: Pinta-se um país cor-de-rosa, com tons de miséria. Um país de brandos costumes, com um sensacionalismo agoniante sobre coisas macabras – dá-se mais ênfase a um homicídio (não quero com isto dizer que não deva ser digno de notícia) do que se dá ao jornalismo de investigação. Claro que, num pais como o nosso, acontecem aberrações. Aberrações como jornalistas virarem políticos e saberem como ludibriar o sistema jornalístico, o acto de saber fechar Portas.

É claro que um jornalista que se preze QUER e DEVE fazer jornalismo de investigação. O jornalista reune em si as capacidades de detective, polícia, e ‘whistleblower’, de fazer chegar ao público a informação que muitos tentam tornar oculta usando a opacidade das leis e burocracias. Mas num país que detêm o 28 lugar a nível mundial no ranking dos países mais corruptos do mundo, parece-me algo absurdamente coerente que tal não aconteça – as pessoas precisam de emprego, e quando não há uma massa que reage, não há segurança para se fazer isso. Quem o faz, ou é um herói, ou é alguém que sabe que pode obter um franco rendimento de outro lado, um lado que sabe que não pode nem será afectado pelos atingidos pela noticia.

Mas claro, nós sabemos quem os verdadeiros culpados de toda esta situação realmente são: nós. A nossa inércia levou a isto. O José Mário Branco ainda apelou à geração anterior à minha. O parasitismo vigente é apenas fruto da oportunidade fornecida pela falta de luta, a divisão de classes, e afins…

Aguardo pelo dia em que o ‘Manifesto do Partido Comunista’ goze do mesmo sucesso de vendas do ‘Mein Kampf’ em Portugal. Talvez ai as pessoas entendam finalmente o verdadeiro significado do ‘comer criançinhas ao pequeno-almoço’, e percebam finalmente o que Hegel quis dizer com ‘Esquerda’ e ‘Direita’. Talvez ai compreendam o verdadeiro poder que têm nas mãos.

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