Expungido encómio – uma reflexão pessoal

Começo a pensar que não sei ou não consigo chegar às pessoas. Sinto que, por mais que fale, argumente, exponha ideias, que a minha voz tem a expressão dura do vácuo, moldada numa escuridão que desafia as leis da física.

Verifico que as pessoas são manifestamente adeptas do silêncio – do silêncio vexativo, submisso, entenebrecido pelo medo. Opiniões – quando as possuem – são proferidas com receio, em caixinhas ladeadas de pequenos muros de gente, com frechas enormes por onde todo o seu discurso discorre deturpado e ferido mortalmente pela necessidade absoluta da mesquinhez e espezinhamento.

É este o meu país?

Onde estão os gritos de revolta?

O rufar dos tambores, fazendo ‘ ruuuuuuffff tuuu ruum’ ininterruptamente, numa melodia hipnótica e melancólica, conduzindo de forma funesta um espírito carregado de um ‘Basta!’ proferido de dentes cerrados e olhos em fogo?

Onde estão as pessoas de braço dado, qual falange recusando-se a quebrar contra o invasor?

Onde está o eco da revolta?

Onde estão vocês, meu povo?

Estão aí?

Olá?

Sim?

Esboço um sorriso tosco a tudo isto. Como sempre, a liberdade não acaba com tiros, mas sim no meio de estridentes aplausos, onde reescrevemos ‘liberdade’ como sendo ‘liberdade de’. E quando nos indicam a que liberdade temos direito, constato rapidamente que o Povo tem a mesma liberdade que um cão: resignado a andar num espaço confinado, acorrentado com correntes invisíveis ao olho de quem não as vê, latindo por atenção e comida, que lhe é fornecida pelo dono.

O Povo já não ordena, dentro de ti, ó país.

Agora, limita-se a chamar-se realista e a dizer que a filosofia não dá pão, não dá sustento, não dá razão.

A que preço te vendeste, meu Povo?

Se Hegel fosse vivo, ensinava-te. Eu esforço-me, mas ou por ser novo demais, ou velho demais; por ter experiência de vida ou me faltar; por ousar presumir que falamos a mesma língua, quando me dizes que não sei falar; por escrever na língua de que me acusas não possuir erudição suficiente para ousar articular um discurso congruente; por todos os motivos que consegues invocar, não consigo chegar até ti.

Recuso falsas modéstias – aprendi com alguém que me tocou o espírito – e como tal, sei que o que te quero dizer e transmitir é sério, é fundamentado, é lógico. Poderá não ser correcto – mas correcto é um termo que se prostitui ao sabor do tempo, das eras – corruptível.

Acertado é tudo aquilo que faz com que tu e eu, e todos, numa unidade, assumamos como nosso aquilo que sempre foi: Portugal.

Luta, compatriota. Luta, camarada. Luta! Luta pela palavra. Luta pela acção. Luta pelo lugar da Sociedade Civil no Estado. Escuta Hegel. Abdica do teu individualismo sonâmbulo, encara os teus, e liberta guturalmente a tua repressão. Quebra as correntes que agrilhoam o teu pensamento.

Transcende.

Sê mais do que tu, um elemento etéreo de uma vida passageira.

Encarna em ti espírito de bisavós, avós,país,filhos, netos, bisnetos e outros que nunca conheceste nem conhecerás. Marca hoje o teu lugar.

Admite que a ambição individualista termina aqui, agora.

Vive uma vida que te faça chegar ao fim e sorrir, dizendo que fizeste e deste tudo para tudo ter, em prol de todos. Sê o teu próprio herói. Sê a mudança que queres ver no mundo.

Sê Tu.

É tudo o que anseio transmitir-te: a seres Tu.

Tem consciência de ti. Não és servo, nem senhor.

És Tu.

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